MANAUS

Crise do oxigênio no Amazonas completa um ano com impunidade e incerteza causada pela ômicron


No dia 14 de janeiro de 2021, o caos se instalou no sistema de saúde de Manaus, quando faltou oxigênio nos hospitais. Na época, as unidades estavam superlotadas após recordes de internações por Covid. Parentes de pacientes internados em Manaus fazem fila para compra de oxigênio no dia 18 de janeiro.
Bruno Kelly/Reuters
Há exato um ano, a crise do oxigênio no Amazonas causava perplexidade em todo o mundo e marcava um dos momentos mais tristes da pandemia no Brasil. No dia 14 de janeiro de 2021, o caos se instalou no sistema de saúde de Manaus, quando faltou oxigênio nos hospitais.
Na época, o estado registrava recorde de internados com Covid, e as unidades ficaram superlotadas. O Amazonas foi o primeiro estado do país a sofrer com os impactos da segunda onda da Covid.
Investigações do Ministério Público e da Defensoria Pública apontam que mais de 60 pessoas morreram em todo o estado por conta da falta de oxigênio. Mais de 500 pacientes foram transferidos às pressas para hospitais em outros estados.
Até hoje, ninguém foi responsabilizado pela crise do oxigênio. Autoridades públicas e empresas privadas são alvos de ações do MP-AM, MPF e da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid, instalada no Senado.
Atualmente, o Amazonas enfrenta uma nova explosão de casos de Covid-19, causada, sobretudo, pela variante ômicron. Na terça e quarta (11 e 12), foram registrados mais mil novos casos de Covid. O número de vidas perdidas, desde o começo da pandemia, passa de 13,8 mil.
Com o aumento, o medo de uma nova crise reativa as restrições. Eventos com mais de 200 pessoas foram cancelados, além de blocos carnavalescos e até cruzeiros.
Esta reportagem mostra fatos que antecederam e sucederam a crise do oxigênio no Amazonas. Você vai entender:
Os sinais da crise que estava por vir;
O caos dos dias 14 e 15 de janeiro;
A omissão das autoridades diante da crise;
O consumo atual de oxigênio no estado;
As incertezas provocadas pela ômicron.
Em Manaus, hospitais lotados ficam sem oxigênio e pacientes são transferidos para outros estados
Os sinais da crise que estava por vir
Em dezembro de 2020, o Amazonas voltou a observar aumento de novos casos de Covid. Com o consequente aumento de internações e mortes, o governo estadual determinou o fechamento total do comércio no dia 26 de dezembro.
A medida causou revolta nos comerciantes e manifestações por toda a capital. Sob pressão, o governo flexibilizou a abertura do comércio no fim do ano, mas a Justiça determinou o retorno das medidas restritivas no começo de janeiro.
Manifestação no Centro de Manaus contra fechamento do comércio.
Paulo Paixão/Rede Amazônica
Em meio a esse cenário, foi identificada no Amazonas a variante P.1, hoje conhecida como Gama, que se mostrou mais letal e mais transmissível.
Rapidamente, o sistema de saúde, tanto na rede pública quanto privada, ficou sobrecarregado. O número de internados com Covid só aumentava, e, também, a demanda por oxigênio.
O caos dos dias 14 e 15 de janeiro
Nas primeiras horas do dia 14 de janeiro, profissionais de saúde e familiares de pacientes saíam de dentro dos hospitais em desespero, relatando que havia acabado o oxigênio dos hospitais. Foram dois dias sem oxigênio, ou quase nada, nos hospitais.
A situação foi constatada nos principais hospitais de Manaus, como Hospital 28 de Agosto, Hospital Universitário Getúlio Vargas, Fundação de Medicina Tropical Doutor Heitor Vieira Dourado, e Serviços de Pronto-Atendimento (SPA) pela cidade.
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Em meio à falta do insumo, pacientes morriam asfixiados nas unidades. A urgência por oxigênio era tão grande que pessoas passaram a comprar o insumo por contra própria, e levavam às pressas para os hospitais, na esperança de salvar seus familiares internados.
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O consumo médio de oxigênio por dia, que era de 14 mil metros cúbicos, cresceu abruptamente, atingindo uma média 76,5 mil metros cúbicos. A capacidade de produção das empresas fornecedoras era de 28,2 mil metros cúbicos, na época.
A corrida por oxigênio provocou filas gigantescas na frente nas empresas fornecedoras, porém, faltou o insumo até para vender. As empresas tinham que dar prioridade ao fornecimento a hospitais.
Parentes de pacientes hospitalizados se reúnem para comprar oxigênio e encher botijões em empresa privada em Manau
REUTERS/Bruno Kelly
Como os hospitais estavam lotados, muitos pacientes permaneceram internados em casa, sobrevivendo com cilindros de oxigênio. Nos hospitais particulares, também faltava o insumo. E, nos dias seguintes, a crise do oxigênio se estendeu para municípios do interior.
De acordo com documentos obtidos pelo Ministério Público, a falta de oxigênio causou a morte de pelo menos 31 pessoas apenas em Manaus nos dias 14 e 15 de janeiro.
Conforme levantamento da Defensoria Pública do Amazonas, cerca de 30 pacientes também perderam a vida por conta da escassez do insumo no interior do Amazonas.
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Com o sistema de saúde sem oxigênio e superlotado, 542 pacientes foram transferidos em aviões da Força Aérea Brasileira (FAB) para hospitais de 16 estados.
A operação iniciou em 15 de janeiro e seguiu até 10 de fevereiro. Segundo a Secretaria de Estado de Saúde (SES-AM), 444 pacientes retornaram com vida ao Amazonas.
O pico da segunda onda da Covid foi registrado entre meados de janeiro e início de fevereiro de 2021. Os números de infectados, internados e mortos pela doença só perderam força a partir do final de março.
Mais 11 pacientes do Amazonas foram transferidos para outros estados por conta de falta de oxigênio em Manaus.
Arthur Castro/Divulgação/Governo do AM
A omissão das autoridades diante da crise
Três dias antes da crise eclodir, em 11 de janeiro, a White Martins, empresa responsável pelo fornecimento de oxigênio ao Governo do Amazonas, informou que a demanda estava seis vezes acima do que vinha sendo registrado ao longo da pandemia.
Ao g1, a White Martins afirmou que possuía capacidade para produzir um volume de oxigênio três vezes maior do que o contratado pelo governo, mas a demanda já superava a sua capacidade.
Na ocasião, o governador do Amazonas, Wilson Lima, já descrevia a situação como dramática, por conta da demanda crescente do estado.
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Segundo a Procuradoria Geral da República (PGR), um relatório apontou que o Ministério da Saúde foi informado no dia 8 de janeiro sobre a iminente falta de oxigênio pela empresa White Martins.
Apesar disso, o então titular da pasta, Eduardo Pazuello, agiu tardiamente para enfrentar o problema. Naquela época, a pasta se dedicava propagar o uso de medicamentos ineficazes no combate à doença, como a hidroxicloroquina.
Durante o período, documentos enviados do Ministério da Saúde a Manaus sugeriam a criação de tendas para indicar remédios sem eficácia comprovada contra a Covid.
A CPI da Covid, instalada no Senado, também mostrou que uma carta foi enviada pela White Martins ao governo do Amazonas no dia 16 de julho de 2020, indicando que o estoque de oxigênio fornecido pela empresa ao estado não suportaria um colapso na saúde pública, justamente o que aconteceria em janeiro de 2021.
Após seis meses de trabalho, a CPI aprovou o relatório final, que atribuiu nove crimes ao presidente Jair Bolsonaro e pediu 80 indiciamentos por crimes na pandemia.
Apesar da Justiça ainda não ter responsabilizado ninguém pelo trágico episódio, ações em diferentes órgãos tentam responsabilizar os culpados. Há processos em andamento na Procuradoria-Geral da República, Ministério Público Federal, Ministério Público do Amazonas, Defensoria Pública, entre outros.
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O consumo atual de oxigênio no estado
De acordo com a White Martins, o consumo atual de oxigênio nas unidades de saúde atendidas pela empresa no Amazonas é de 11,4 mil metros cúbicos diários, o que representa um sexto da demanda na época.
Durante a crise, foram instaladas 41 miniusinas geradoras do gás oxigênio, sendo 11 na capital, e 30 distribuídas em outros 26 municípios do interior, que seguem em funcionamento, segundo a SES.
Somados as produções das miniusinas e das empresas que possuem contrato com o governo, a capacidade de produção de oxigênio medicinal no Amazonas gira em torno de de 60 mil metros cúbicos por dia, conforme a SES.
Usinas de oxigênio são instaladas em Manaus e outros 15 municípios do interior do Amazonas.
Divulgação/SES-AM
As incertezas provocadas pela ômicron
Agora o Amazonas está diante de uma nova explosão de casos de Covid-19 causada pela variante ômicron.
As medidas de restrição foram reforçadas. Festas e blocos de rua no Carnaval de Manaus já foram suspensas, assim como a Temporada de Cruzeiros. Os eventos com venda de ingresso estão proibidos por tempo indeterminado, e os eventos privados devem ter limite máximo de 200 pessoas.
Testes de Covid-19 são realizados no Aeroporto de Manaus.
Tácio Melo/Secom-AM
Mesmo não sendo tão letal como as outras cepas, a variante causa preocupação, e especialmente em um contexto de alta de outras síndromes respiratórias, como a Infueza H2N3, que sobrecarregam os hospitais da capital.
Apesar da preocupação, o governo Wilson Lima afirma que o estado conta, atualmente, com uma estrutura muito mais robusta e preparada para um eventual terceiro pico, como visto no ano passado.

Hoje temos 350 leitos funcionando só no Hospital Delphina Aziz, eram apenas 130 no passado. Também temos 11 leitos de UTI em Parintins, o que não contávamos no passado, além de usinas de oxigênio, que agora temos 39. Portanto, estamos muito mais preparados para enfrentar uma situação como nós vimos no ano passado, o que eu acredito que não vai se repetir

, disse Wilson Lima em entrevista à Rede Amazônica.
Segundo o governador, o consumo de oxigênio também é monitorado em tempo real pelas equipes de enfrentamento à Covid-19.
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